sábado, 17 de agosto de 2013

Retrato desonesto (rascunho)

estou triste tão triste
e o lugar mais frio do rio é o cigarro
que não fumei é a maconha
que não comprei
é a coragem que não herdei
de quem?

voltemos a onde tudo começou
e disse faça-se a luz: o primeiro erro
naquela sala de portugal meu avô
de pernas abertas paria
a si m
ermo

o médico disse parta-se a luz
que o sol se põe
a cena romântica perdida
corta valeu equipe amanhã gravamos
mas eu aqui preciso terminar
que esse homem não aguenta mais dois
segundos sem se parir

[não faz parte da investigação mas para os curiosos:
no dia seguinte a equipe voltou não havia nada
o drama virou videoarte
fez muito mais sucesso que seu personagem
agora no brasil permitiria]

o homem consigo morto
no colo chega escreve lamentos
versos sonetos
terríveis terríveis
como dói
passa as tardes em casa
aguenta a mulher insuportável
visita a amante que não me contam
sem um pingo de ereção
diz só um segundo, meu amor
estou a providenciar as coisas
         a premir a cartela
         a tomar comprimido
         a bloquear o fluxo sanguíneo no sentido coração
         a morrer
         à toa

um telefonema: filho,
seu avô morreu
Quem: seu avô
O que: morreu
Como: aposentado
Onde: voltando do trabalho
ai, o jornalismo

Sábio meu pai, filólogo
estudioso das tragédias
entende que a culpa
é do oráculo
e não revela-me o futuro

altought nunca venha a ter
esposa amante versos terríveis
algo a mim comove nessa história
o que será?

Pergunto aqui meus queridos
P:
quem é a loura donzela
que se chama Ana Cristina
e que se diz ser alguém?

R:
é
um
lapso
sutil

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Em escala de arrogância e egoísmo.
Acima da arrogância.
Acima do egoísmo.
Ali, a solidão.


Ou "Carta escrita mas nunca enviada":

Caramba, Clara, faz tempo eu tinha decidido ia te escrever uma carta. Agora pensei: carta que nada, a boa é escrever logo o roteiro. Mas eu não consigo, eu não acredito em mim.
É um saco e um saco porque eu não posso criticar a população média que assiste comédias românticas. Porque eu vejo Les Chansons d’Amour e no final o Garrel tá sozinho e é uma solidão que a gente nota no corpo e fica mal por ele, mas chega a menina ela chega e leva ele pra casa do garoto, pro quarto do garoto lindo, apaixonado disposto que diz: você deve aceitar eu te amo.
E agora, caralhos, pra entender, ninguém vai surgir me amparar as costas, levar pra casa do garoto e dizer, tá tudo bem.
Eu sou uma criança, eu vivo no princípio de prazer, eu não sei se qualquer dia vou ser capaz de fazer qualquer coisa, eu tô mal.
Faz uma semana e pouco eu tenho bebido todo dia e tava achando engraçado, divertido manter a sequência, arranjar uma desculpa pra beber feito orgulhoso de bater o próprio recorde (nem sei se é recorde mesmo). Daí hoje disse de brincadeira: é quase princípio de alcoolismo e é quase verdade.

E na real não sei por que te escrevi tudo isso. ):

Eu precisava falar com alguém e a ideia de uma pessoa na Itália é o mais distante que consegui chegar. E olha que tem tanta gente tão mais distante a dois cômodos de distância...

(dias outros que não 5-8)

Quando escrever um livro
o nome será sólido
grande

engana
soa menos
repete

*

Idem - mas

Entre eu
e buldogue
a diferença é pouca

buldogue:
arregaça as pernas
balança a bundinha
no meio da rua
prum lado e pro outro

eu:
idem - mas
substitui-se
meio da rua
por latrina


Ah, se todos tivessem
a coragam para abrir
as pernas balançar
bundinha prum lado
pro outro no meio
da rua


*

Não escrevo
poemas faço
piadas

como ninguém
ri a
desculpa

piadas
não faço
poemas escrevo

*

enjambement
do latim
trocadilho

ao som de caetano

(5-8-2013)

Hoje, por duas vezes me perdi. A primeira no teatro a segunda na rua. Não sei qual deliberada qual acidente. Mas nambas um fascínio, suspensão momentânea do medo-corrente. Gozo breve.  tentei mais duma vez escrever o que se passou nas ruas da gávea. Na praça. A solidão redentora. A escrita que resignifica o espaço. A Bahia shuffle bárbara.
Reproduzo apenas o que escrevi no banco caderninho azul-flores entre liberdades. Sem nenhuma intenção estética. E com todas.
Enlouqueci. Enlouqueço cada vez mais. Observo-me atenta e lucidamente enlouquecer.
Que loucura.

*

Liquideus
desisteu
de mim

*

Os loucos
desabrigados
aprenderam
por força
a rua


Os colunistas
guardavam sonhos
filhos
da propriedade
privada priva-
dos sonhos
guardados


Chamo Chile
onde sou
colunista
e louco

*

pépépépépépépépépépépépépépépépépépépépépépépépépépépépépépé

               (eu)                                                                 caramba, nem parece
              (banco)                                                                que são dois


*

Há dois anos estudando aqui e nem fazia ideia de que esse lugar é assim.

*

Às vezes eu espero uma coisa tão grande da máquina
do mundo
feito não vejo a planta atrás do poste o mar de ladrilho (pedra
do colonizador) sujo feito não faço carinho no cachorro A MÁQUINA
MEU DEUS A MÁQUINA (isso em nada reduz) está no não ser.
E quantas gotas de álcool revelador deixei derramar à toa
(há seis mil anos o homem vive feliz fazendo vinhos e asneiras)
(há seis mil anos eu jogo vinho fora, veja só, mas que besteira)

*

Contra o machismo linguístico,
usemos todos o vocábulo:
HOMEMA

*

"eu cheguei aqui"
and it's a long road
it's a long way
a lolololololong
way
se quiser continuar