Pego o telefone...
...toca, toca, toca, toca...
“Ahn... oi?!” Ela diz, como quem tem o dormir interrompido.
Suspiro aliviado. Desligo.
Para mim isso bastava.
Nunca fui muito bom entendedor. Das letras eu não passava do pé. A maior parte das estórias de minha infância parte daí. Como o dia em que gripei brabo tentando tirar o cavalo da chuva, ou as vezes em que joguei água gelada na vaca esperando vê-la tossir. Ali estava o pé da letra, me chutando sem a menor consideração.
O caso do gafanhoto fora diferente, porém. Contarei o que lembro, inventarei o resto.
Tinha meus 13, 14 anos, e estava virando doido, segundo o pai. Tinham medo qu’eu tomasse o rumo do filho dos Rocha que desatou a reclamar da vida e acabou por tirar a própria. Algo me expulsava da realidade, fazia toda a minha vida parecer nada. Queria me sentir importante para alguém, precisava d’um aluno, um pupilo... “um gafanhoto”, disse a tia. Eis que minha ignorância e fé no pé da letra me levaram ao terreno, numa busca incessante pelos pequenos e saltitantes bichos verdes.
Não tardei muito a encontrar um, e logo tentava ensiná-lo os ofícios da fazenda. Ele não levava muito jeito, pequeno demais para alimentar as galinhas ou tirar o leite de Geniza todas as manhãs. Só fazia saltitar, meu gafanhoto relapso. Saltitar e paquerar, sempre fugia do trabalho para ter com alguma gafanhotinha ao leito do riacho.
Quando vi que não tinha jeito, abandonei meu aluno, abandonei o trabalho e tratei, também de vadiar. Sentei ao riacho, junto da menina da fazenda ao lado.
Conheci Maria naquele dia, naquele dia conheci o gostar.
Em pouco tempo já era amigo íntimo do amar. As tardes no riacho e na casa de Maria se fizeram mais comuns, assim como as tamancadas e castigos por fugir ao trabalho, aprendi bastante com meu gafanhoto. Não dava muita importância às reprimendas, agora eu tinha sonhos e planos. Queria ter uma casa com minha amada, filhos, e tudo o que eu entendia por uma boa vida. Até o pai já não me chamava de doido, era apenas “vadio”, agora. Me sentia melhor assim. Aqueles encontros nortearam minha adolescência por um tempo muito do bom.
Maria se foi com a família para a cidade algum dia, nunca mais a vi. A dor das tamancadas me fez voltar a trabalhar, a dor da perda também passou rápido, coisas da idade. Aos poucos, fui conhecendo novos tipos de amor (do amigo, do irmão, do desconhecido...). Passei a conseguir aguentar aquele vazio, desde então. Fui levando, tal qual um gafanhoto...