Ela desceu do trem, a menina Carolina. Talvez o barulho que as rodas da mala faziam com o chão não a permitissem ver o que acontecia logo ao lado. Ou era só a música na cabeça que era tanta, mas tanta, feito coisa que tapava tudo o que havia pela frente.
E assim desligada acabou se metendo por lá. Subiu no trem do outro lado da plataforma e as cabeças luminosas não se moveram nem. Todas brilhavam de um jeito que lábio olho nariz cabelo eram uma luz só. E Carolina com toda aquela música na frente não chegava a ter os olhos irritados.
Esboçou uns passos pelo corredor, cansou e sentou-se em frente a um brilhante de paletó.
- So how about it?
- Show me please how I will look in twenty years – ela completou; ainda que parecesse antes estar falando consigo mesma que respondendo a alguém.
E o trem partiu.
Ela não via, a menina, aquilo que se passava pela janela. Tanto melhor: visse e nada mais pareceria real.
O trem parou bruscamente e tudo quanto podia foi pra frente. Cabelo, coluna, óculos. Mas nada tanto quanto a música. E se fez silêncio.
O homem de paletó colocou os óculos de volta no rosto de Carolina que já podia ver tudo: o trem não diferia muito daquele do qual acabara de sair, exceto pelos luminosos sentados em cada mesa: um em frente ao outro. Em silêncio. Aquele à sua frente parecia muito simpático, embora a única coisa que o distinguisse dos demais fosse a roupa. Tinha uma das mãos sobre seu braço direito apoiado à mesa. Era confortável.
- Fez uma boa viagem? – Ele perguntou.
- Eu não estava contigo? – Ela respondeu.
- Antes de chegar aqui, gracinha... Achei que não chegaria nunca, perdi a conta de quantas vezes já fui e voltei.
- Desculpa.
Ela nunca entendeu porque estava se desculpando, mas achava a coisa mais certa a se fazer – ainda acha.
-Vamos descer.
E eles foram de mãos dadas. Não pegaram as malas, Carolina já nem lembrava mais em que momento havia se separado da sua.
Caminharam por tempo de se perder a conta sobre aquele rosto. Fizeram toda a trilha labial, sentaram em algumas das poucas espinhas para conversar – ele era tão agradável -, passaram horas admirando aqueles olhos, até que, feito onda, se fecharam com sua espuma de cílios.
Nada se comparava, porém, à vista que tiveram quando escalaram o nariz. Tão bonito. Tão bonita. De lá ela via tudo. E entendia cada marca, cada traço. Vislumbrava os sorrisos já apagados e as lágrimas já secas. Sentia as coceiras quase que na pele e ouvia cada segredo sussurrado no ouvido. E na boca.
Narrava tudo para ele, que muito menos conseguia ver. Como era doce a menina Carolina e como era doce a mulher Carolina.
E as estórias que ela contava... Ele se empolgava de vez em quando e brilhava um pouco mais intenso. Por vezes baixava um pouco a luz e lhe dava um abraço paletó. Ela tinha um jeito tão gostoso de contar, tão dela, tão ela.
Não se preocuparam com horários e atrasos, simplesmente souberam quando era hora de voltar. Deitados na planície da testa ele perguntou:
- E o que você achou?
- Não sei.
- Ah.
Ela não parecia desapontada. Empolgada também não estava.
- Eu não sei mesmo. Quer dizer, não estou preocupada. Foi tão – e disse esse tão tão sincero -bom vir aqui, te ver depois desse tempo todo.
- Eu também gostei. Ah, tive tantas saudades...
- Não sei se isso é felicidade, não sei se consigo ser feliz.
- Carolina...
- É sério... não estou reclamando. Estou bem. – E sorriu.
Ele brilhava por dentro mais intensamente que por fora.
-Então vamos, fofinha.
Deram as mãos e mergulharam nos cabelos. Fios e mais fios e mais fios lembravam aquelas linhas que ela fazia em tudo quanto era lugar. E caíam. E escorregavam nas linhas até chegar.
Carolina acordou num dia normal. Comeu um pão normal. Falou coisas normais com a mãe.
E não se surpreendeu quando, ao se ver no espelho, era toda luz e óculos.