sábado, 25 de junho de 2011

Autorretrato

Ela desceu do trem, a menina Carolina. Talvez o barulho que as rodas da mala faziam com o chão não a permitissem ver o que acontecia logo ao lado. Ou era só a música na cabeça que era tanta, mas tanta, feito coisa que tapava tudo o que havia pela frente.

E assim desligada acabou se metendo por lá. Subiu no trem do outro lado da plataforma e as cabeças luminosas não se moveram nem. Todas brilhavam de um jeito que lábio olho nariz cabelo eram uma luz só. E Carolina com toda aquela música na frente não chegava a ter os olhos irritados.

Esboçou uns passos pelo corredor, cansou e sentou-se em frente a um brilhante de paletó.

- So how about it?

- Show me please how I will look in twenty years – ela completou; ainda que parecesse antes estar falando consigo mesma que respondendo a alguém.

E o trem partiu.

Ela não via, a menina, aquilo que se passava pela janela. Tanto melhor: visse e nada mais pareceria real.

O trem parou bruscamente e tudo quanto podia foi pra frente. Cabelo, coluna, óculos. Mas nada tanto quanto a música. E se fez silêncio.

O homem de paletó colocou os óculos de volta no rosto de Carolina que já podia ver tudo: o trem não diferia muito daquele do qual acabara de sair, exceto pelos luminosos sentados em cada mesa: um em frente ao outro. Em silêncio. Aquele à sua frente parecia muito simpático, embora a única coisa que o distinguisse dos demais fosse a roupa. Tinha uma das mãos sobre seu braço direito apoiado à mesa. Era confortável.

- Fez uma boa viagem? – Ele perguntou.

- Eu não estava contigo? – Ela respondeu.

- Antes de chegar aqui, gracinha... Achei que não chegaria nunca, perdi a conta de quantas vezes já fui e voltei.

- Desculpa.

Ela nunca entendeu porque estava se desculpando, mas achava a coisa mais certa a se fazer – ainda acha.

-Vamos descer.

E eles foram de mãos dadas. Não pegaram as malas, Carolina já nem lembrava mais em que momento havia se separado da sua.

Caminharam por tempo de se perder a conta sobre aquele rosto. Fizeram toda a trilha labial, sentaram em algumas das poucas espinhas para conversar – ele era tão agradável -, passaram horas admirando aqueles olhos, até que, feito onda, se fecharam com sua espuma de cílios.

Nada se comparava, porém, à vista que tiveram quando escalaram o nariz. Tão bonito. Tão bonita. De lá ela via tudo. E entendia cada marca, cada traço. Vislumbrava os sorrisos já apagados e as lágrimas já secas. Sentia as coceiras quase que na pele e ouvia cada segredo sussurrado no ouvido. E na boca.

Narrava tudo para ele, que muito menos conseguia ver. Como era doce a menina Carolina e como era doce a mulher Carolina.

E as estórias que ela contava... Ele se empolgava de vez em quando e brilhava um pouco mais intenso. Por vezes baixava um pouco a luz e lhe dava um abraço paletó. Ela tinha um jeito tão gostoso de contar, tão dela, tão ela.

Não se preocuparam com horários e atrasos, simplesmente souberam quando era hora de voltar. Deitados na planície da testa ele perguntou:

- E o que você achou?

- Não sei.

- Ah.

Ela não parecia desapontada. Empolgada também não estava.

- Eu não sei mesmo. Quer dizer, não estou preocupada. Foi tão – e disse esse tão tão sincero -bom vir aqui, te ver depois desse tempo todo.

- Eu também gostei. Ah, tive tantas saudades...

- Não sei se isso é felicidade, não sei se consigo ser feliz.

- Carolina...

- É sério... não estou reclamando. Estou bem. – E sorriu.

Ele brilhava por dentro mais intensamente que por fora.

-Então vamos, fofinha.

Deram as mãos e mergulharam nos cabelos. Fios e mais fios e mais fios lembravam aquelas linhas que ela fazia em tudo quanto era lugar. E caíam. E escorregavam nas linhas até chegar.

Carolina acordou num dia normal. Comeu um pão normal. Falou coisas normais com a mãe.

E não se surpreendeu quando, ao se ver no espelho, era toda luz e óculos.

domingo, 5 de junho de 2011

Vejo coisas como movimentos "pela família" se articulando. Trocentas greves acontecendo e eu sequer tomando conhecimento, nego achando que as UPPs são a medida mais genial dos últimos 50 anos no Rio, grupos ~neonazistas~ se articulando.
E o que a gente vai fazer? O problema é estrutural. Pontos de vista diferentes.
Entendo quem simplesmente pega as malas e vai pra outro país ou coisa assim. E ao mesmo tempo tenho muita vontade de fazer alguma coisa.

http://www.kioskerman.com.ar/aparicion.htm

Me sinto exatamente assim às vezes.
ESTOU O DIA INTEIRO ENROLANDO PRA FAZER UMA REDAÇÃO DE DUAS PÁGINAS QUE O PROFESSOR NEM VAI LER.
SOU FODIDO?

quarta-feira, 1 de junho de 2011

quero que um estranho sente do meu lado e comece a conversar comigo
quero me sentir confortável pra falar sobre qualquer coisa sem me preocupar em estar sendo julgado ou se ele é bonito ou hetero ou pan ou liberalista ou socialista ou nada
quero poder ir embora depois sem me preocupar em encontrá-lo de novo

preciso
lembrar que a vida não é um filme
Não sei mais construir minha personalidade em certos espaços.
Sociabilizo errado, incorporo estigmas, meus amigos me censuram, meus nem amigos nem nada perto ora me condenam ora me irritam.
alguém me ajuda?