domingo, 22 de setembro de 2013

Revirar as pastas tem dessas coisas.
Que podem não significar nada.
Mas não importa. Não sei o que importa.


*

A história é sobre aquela menina que tinha uma saia. Tinha uma saia e pensava "eu posso dominar o mundo". E de fato podia.
Durante a semana não usava não. "vai que rasga".
Mas se era sábado, era saia! Domingo, então, nem se fala.
Saía pela rua toda brincadeira toda risada e rodava em volta do poste e dizia "i'm siiiiiinging in the rain". Precisava nem estar chovendo, que a tal da saia era tão esperta tão em camadas que farfalhava uma parte com a outra e ficava c’uma cara muito de chuva mesmo.
Quando a saia chegava na pracinha, deitava no balanço, balançava balançava e, bem no alto, pulava pra cair na areia. (pra cair na areia é o que dizem) Porque, tão cheia de pássaros desenhados num azul degradê – do quase branco àquele céu de tempo bom – voava. A menina, coitada, não tinha opção senão voar junto.
A tia desatava a embestar: êta menina, algum dia tu ainda quebra um braço. E onde lá eu vou quebrar braço, Tia? Batendo na nuvem? Batendo no chão! Tu parece que pensavoa. Mas se eu não voo que que foi esse tempão todo lá no alto? Isso se chama pulo, guria, se chama estripulia. Ai, tia, tem gente que voa, tem gente que prefere o chão, mas derrubar os outros é que não cola.

- Tá, e daí?
- E daí o quê?
- O que que aconteceu com a menina a tia a saia?
- E eu lá sei?
-Você tem que parar de contar as histórias sem saber o final.
- Então tá.
- Tá o que?
- Tá que eu já tenho um final.
- E como é?
- Elas morrem.
- Elas quem?
- A menina e a saia.
- E a tia?
- Continua caindo por aí, mas tá viva.
- Mas então por que logo a menina?
- Porque todo mundo morre algum dia.
- E você acha isso justo?
- Cara, quem sou eu pra dizer se é justo ou não?
- Porra, a garota toda na dela, uma história pela frente e você acha que pode simplesmente dizer “ela morreu” e tá tudo bem?
- Tudo o que eu tô dizendo é: quem foi que decidiu que existe coisa como a justiça agindo sobre o mundo? E, sinceramente, não sei dizer se é justo ou não.
- Puta merda, além de cético, você é insensível.
- Vou tentar ser claro: eu jamais disse que caguei para o fato. Óbvio que fico triste de saber que ela não vai mais balançar e voar por aí, ou rodopiar postes ou guardar a saia naquela caixa florida bonita durante a semana pra não acontecer nada. Acontece que desde muito cedo a gente aprende: somos uma coisa que vai estragando com o tempo até quebrar ou cair por acidente.
- Mas ela não era do tipo que cai, ela voava.
- Não faço ideia do que existe no mundo. Até vejo a origem religiosa dos meus pensos, mas sempre desconfiança. Acontece que, apesar disso, eu acredito em alguma coisa e sei, do fundo do fundo, que essa menininha tá bem.
- Você acha mesmo?
- Uhum.
- E como consegue acreditar nisso?
- Seguinte: a gente não entende das coisas do mundo. Não sei se existe a justiça, mas penso assim: existem as coisas boas (e tudo de certa forma, pode ser uma coisa boa nesse mundo de pontos de vista). E de repente acontece algo que nos faz pensar: acabou (eu vi esse filme ontem que terminava com alguém falando “acabou. Palavra estúpida”). Mas, sabe, ela era fantástica, aqui, vai ser fantástica onde quer que esteja. Seja num plano espiritual ou trasmundo qualquer, seja como poeira cósmica que nos compõe ou mesmo retornando pra sempre. E aí já não é nem tanto questão de justiça. É fé.
- Mas o que a gente faz? Como a gente fica?
- A gente só pode amar.
- E a dor?

- Vai lembrar que a gente tem que amar pra sempre.

Um comentário:

Pedro disse...

você continua fantástico, menino (: