Andava trôpego pela rua, o bêbado.
A cena que se prosseguiria não escapava da vista da minha janela.
Foi ali, onde duas ruas se cruzavam, à frente do poste de iluminação já apagado e abaixo do anúncio do cigano que prometia trazer seu amado em sete dias ou, ao menos, um sorriso. Prometia, porque, morto, já não promete mais nada. Morto, também não retira o anúncio do poste.
Não foi o anúncio, porém, que chamou a atenção do beberrão, mas a refeição completa que se dispunha a sua frente, com talheres e guardanapo de pano, uma taça de cristal acompanhada por uma garrafa de vinho e, no prato, peixe ou frango, senão, o que hoje em dia não é muito difícil, qualquer outra besteira feita de soja. Aquela oferenda a algum santo, orixá, força mística ou, porque não, uma simples refeição adiada por motivo de força maior, perturbou o homem como nenhuma outra coisa seria capaz.
-É o Capeta! Satanás! O Trava-Rua! – Bradava enquanto tentava chutar o prato, sempre seguido de falha devido ao efeito do álcool ou, nunca se sabe, a proteção da força mística que envolvia aquele peixe/frango/soja. – É o Monstro! O Anjo Caído! O Abominável!
Cansado de não acertar nenhum chute, o bêbado arrancou o único tênis que trazia nos pés e atirou contra a oferenda. Não teve sucesso. Repetiu o processo com o sinto já desafivelado. O resultado não foi diferente.
- Não pode me deter! –Gritava ainda mais alto.
Atirou a blusa, as calças, nem mesmo a cueca permanecera-lhe no corpo.
-É Obama! A Rede Globo! O fim dos tempos!
Já desesperado pela dificuldade encontrada no combate ao mal desatou a chorar. Enquanto derramava suas lágrimas não viu o poste com a foto do velho cigano se aproximar de sua cabeça, apenas sentiu o impacto que o levou ao chão. Seu coco de dimensões avantajadas partiu o prato em alguns pedaços.
Estendido no chão da rua, confortavelmente ajustado a um travesseiro de sangue jazia o louco nu. Não viveu muito mais que o tempo necessário para rearranjar os dentes num sorriso, tinha cumprido sua missão afinal.
O mais curioso em toda essa estória, é o velho cigano ser morto o suficiente para não poder arrancar aquele anúncio, mas, morto, continuar a construir sorrisos. Quanta hipocrisia.
(tumblr)
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